CUIDADOS QUE DEVEMOS TER
PARA COM O MANOEL DE BARROS

– Para Manoel de Barros –

Antes de tudo é preciso que haja um princípio alquímico. Este princípio será uma casa com varanda larga de onde se possa sentir às vezes um cheiro muito suave de musgo e flores. Muito limpa. Em lugar com ar muito puro. Toalha branca de mesa. Cheiro de sol. Uma brisa (com cheiro) de mata depois da chuva deve, durante o dia, atravessar a casa de vez em quando – sem ser de propósito. À noite a brisa deve ser de jasmim, manacá e lírio. Deve haver também brisa de rio (sobretudo à tarde, e um pouquinho antes de ir dormir), daquelas que flutuam dez centímetros acima da superfície, e às vezes sobem mais alto para encontrar o vento. Essa brisa deve lembrar levemente o pôr-do-sol quando passar pela casa à tarde, e lembrar tardes na beira do rio quando passar pela casa à noite. Deve haver doçura, para combinar com o Manoel. E claridade, para combinar com o Manoel.

Na varanda haverá cadeiras com encosto bem confortável, para que o Manoel possa sentar-se e fechar os olhos. E assim ver o chão do jardim, o quintal, a beira do rio. É nesse momento que começa o milagre.

Deve haver uma forma de os passarinhos poderem ver o Manoel, sentado na varanda, ou andando pela casa, ou cuidando de plantas com o olhar. As plantas gostam muito disso. Uma prova é que florescem.

As flores do Campo Grande, quando descobriram o Manoel, conversaram entre si. Com voz de perfume suave. Houve certo alvoroço. É verdade. Alice ouviu.

As janelas da casa devem ficar abertas durante o dia para que os passarinhos possam agradecer ao Manoel pelo que ele fez por eles ao escrever o seu tratado sobre passarinhos, que eu, sem o Manoel saber, distribuí por todos os ninhos e árvores. Houve comentários e alegria entre os passarinhos. As flores ficaram escutando. E entenderam. As árvores altas também, e continuaram no seu êxtase. Alguns insetos custaram um pouco a ouvir. Mas conseguiram. Não demorou muito – gastou só o canto de um sabiá.

O modo que os passarinhos usam para agradecer é bem característico: continuam voando, cantando, pousando nos muros, nas janelas, nas árvores. Continuam fazendo os seus ninhos, pondo ovos e tendo filhotinhos.

(A natureza se sente muito bem com isso. Se não houvesse passarinhos não sei se a natureza aguentava)

E continuam bicando a água dos rios no vôo de passagem. Esta parte é importante porque os passarinhos não podem ficar com sede. Vejam sobre isto no tratado do Manoel. Não está escrito mas tem lá. É um tratado muito completo.

Tem coisa que não está escrita mas a gente pode ler – a poesia, por exemplo.

Deve haver caramujos no jardim (e na base das paredes externas da casa; e nos muros, é claro – qual é o muro que se preze que vive sem caramujo?). E coisas para eles comerem – como para os passarinhos. Inclusive água. Caramujos comem água, não bebem. Por isto são meio líquidos. O resto vem da amizade que há entre eles e os riachos.

Porque não é possível que vocês vão querer que o Manoel passe sem caramujos! Ora, se não houver caramujos, de onde vai vir o eterno? Para qualquer caso vejam tudo no tratado do Manoel. Eu estou só recordando os princípios. Isto faço porque cuido muito bem das coisas do Manoel: caramujos, ciscos, vento. Não deixo faltar nada. Senão a poesia vai embora balançando os braços descontente dizendo "assim não dá". E, se não houver ciscos no jardim, periga não haver passarinhos. Então, como é que vai ser?! Sem passarinhos não há condições. Vocês sabem que sem eles os caramujos nem saem das casas? E pois. Nem cantam nem nada.

Claro que caramujos cantam! Principalmente quando vão chegando... Quem é que pode vir do eterno sem cantar?

Deve haver outras coisas pelo chão do quintal: vidrinho sem tampa com um pouco de areia dentro, besouro virado se mexendo – que depois se desvirará e voará –, pedaços de barbante, ciscos, formigas, pregos enferrujados etc.

No mais, só preciso fazer um contato com a calma, escrever-lhe uma carta. Para que ela nunca deixe a casa. Ela pode ir passear, ou ficar pela varanda, na hora do movimento. No almoço, por exemplo. No almoço é preciso que haja certo movimento. Senão nem os passarinhos entendem. Quando eles ficam olhando muito, vocês podem saber que é por causa de silêncio excessivo na hora do almoço. E talvez por algumas migalhas de pão em cima da mesa.

Sérgio Nunes

Belo Horizonte, 6 de março de 2002

 

 

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