ALQUIMIA E ARTE NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
Sérgio Nunes de Morais
Hoje, quando se fala em alquimia, a grande maioria das reações é composta por olhares interrogativos e expressões assustadas – quando não amedrontadas –, cenhos franzidos, e comentários do tipo: "–Você está mexendo com essas coisas?!", "–Ah, mas alquimia é uma coisa meio antiga, não?!", "–Magia Negra?!", "–Alquimia não existe mais...", "–Quê isso! Você ficou louco?!" Na esfera "positiva", os comentários se estendem para: "–Eu conheço um alquimista, ele mora ali na Guajajaras com Tupis e não conversa com ninguém"; "–Meu médico trabalha a nível alquímico, ou seja, hortomolecular, e eu estou fazendo uma dieta com metais e frutas". No domínio das artes plásticas a coisa não fica muito diferente; a alquimia é geralmente confundida com uma espécie de "química sofisticada", quando não com uma "química pessoal", cujo "processo" parece ser, para o artista, satisfatório desde que ele manipule ácidos para corroer chapas de metal ou cole uma folha de ouro sobre a superfície de seu trabalho. No mais, parece que, para as pessoas em geral, qualquer médico homeopata ou dono de restaurante natural já traz "uma certa carga alquímica no olhar". Agora sem defesa, a "alquimia" é usada por qualquer um e para qualquer fim, tendo chegado a um nível de vulgarização semelhante àquele em que chegou a "arte" e os produtos dela derivados. Ninguém se dá ao "penoso" trabalho de ler algum livro sério sobre a ciência hermética; e, quando se dá – talvez por alguma espécie de revanche pelo que não entendeu –, torna-se imediatamente um "alquimista" e define logo a sua causa: "–É que eu faço alquimia mais a nível comportamental". O que é realmente a alquimia? Disse Jacob Böhme: "Não há diferença alguma entre o nascimento eterno, a reintegração e a descoberta da pedra filosofal." Para aqueles que entendem – no sentido alquímico – a expressão "nascimento eterno" e a palavra "reintegração" fica tudo bem claro, pelo menos quanto a uma possível definição do "objetivo" dos alquimistas. Mas a alquimia, que tem uma doutrina assentada em sólidas bases (doutrina que, da mesma forma, se vulgarizou em fórmulas e receitas práticas para penúria dos crédulos e proveito dos charlatães), teve também um início e um apogeu históricos, desaparecendo por completo a partir do século XVII. No entanto, ainda hoje encontramos, paradoxalmente – se assim podemos dizer –, figuras enigmáticas de mestres herméticos. Teria realmente desaparecido a Arte Régia? Ou teriam, os seus adeptos, preferido disfarçar--se no mundo de hoje, onde o número dos que não sabem se alarga quase à totalidade? Se a alquimia se extinguiu, como explicar, por exemplo, o surgimento, em nosso século, de uma figura tão admirável quanto a de Fulcanelli – o enigmático autor de As Mansões Filosofais* –, um dos mais célebres alquimistas de todos os tempos? Quem o reconhece como tal? Quem cuida das edições sucessivas de seu tratado – traduzido para várias línguas –, e quem recebe os direitos autorais? Nós sabemos que grandes artistas – por exemplo J. D. Salinger – preferem o silêncio do anonimato ao ruído da fama e do reconhecimento público. "É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade", escreveu Fernando Pessoa. Talvez outros pensem acertadamente da mesma forma. Seja como for, a verdade é que Fulcanelli – que viveu e trabalhou na França, no início deste século – conseguiu dissimular completamente a sua identidade, desaparecendo por completo dos olhares do mundo por volta de 1929, data a partir da qual ninguém mais o viu – o que não significa, de forma alguma, que tenha "morrido" (como se apressam logo em concluir aqueles que são incapazes de sentar-se sequer por cinco minutos e pensar). Citemos mais um exemplo, de outra ordem, mas que é também claro e concreto: onde está Carlos Castaneda (autor de "A Arte de Sonhar", "O Fogo Interior", "O Poder do Silêncio", etc.), em cujos livros aparece a admirável figura de Dom Juan, e que foi um dos mais lidos e cobiçados autores dos anos 60 e 70? Castaneda parece não estar muito interessado no "mundo contemporâneo". Como ele próprio disse em uma recente entrevista secreta – que desembocou em livro –, preferiu disfarçar-se: mudou de identidade e, há muitos anos, desapareceu dos olhos do público, enqüanto continua escrevendo os seus livros e fazendo o seu trabalho com o seu grupo – cujos componentes também parecem não estar interessados em nenhuma publicidade. As edições dos livros de Castaneda esgotam-se rapidamente; seus admiradores esperam com ansiedade o surgimento de um novo título, que compram e devoram mal este chega às livrarias: sinal de que Castaneda tem um público amplo e fiel, que o admira independentemente das condições impostas pelo mundo da arte, mundo em cuja função os próprios artistas parecem estar, cada vez mais, se rendendo aos artifícios da publicidade. Talvez os grandes artistas do futuro, e mesmo de hoje, prefiram uma vida mais calma, mais sossegada, sem a efervescência fria e confusa de um reconhecimento público insensato. Talvez isto tenha acontecido (é o que parece) com os alquimistas: a decisão sóbria de se retirar dos olhos do mundo, de disfarçar-se, e de continuar, anonimamente, o seu trabalho. Artistas como Jan Vermeer, Lewis Carroll, Fernando Pessoa, Giorgio Morandi, Joseph Cornell e Marcel Duchamp foram assim, e, com certeza, outros que agora me escapam à memória. Este é não somente o caminho mais sóbrio, como também o mais bonito. E é por isto que eu gosto tanto de um texto de Fernando Pessoa intitulado "A Celebridade". Indistinta e coerentemente
classificada por seus autores como arte ou ciência, a alquimia está
longe de se limitar – como pensam muitos – à tentativa
(e mesmo à realização) da transmutação
dos metais vis em ouro. No entanto, para o homem contemporâneo,
cuja grande maioria parece crer na veracidade dos "fatos" contados
pela História, tornou-se extremamente dificultosa a compreensão
de tudo aquilo que não é moda no atual ciclo de sua civilização.
"A tradição hermético-alquímica –
escreve Julius Evola** – forma parte do ciclo da civilização
pré-moderna, "tradicional". Para compreender o seu espírito
temos que nos trasladar interiormente de um mundo a outro. Quem empreender
o seu estudo, sem se ter situado numa posição donde possa
superar a mentalidade moderna e despertar em si uma nova sensibilidade
que o ponha em contacto com o tronco espiritual geral que deu vida a tal
tradição, só conseguirá encher a cabeça
de palavras, signos e alegorias extravagantes. Por outro lado, não
se trata duma simples condição intelectual. Há que
ter em conta o facto de o homem antigo não só ter um modo
de pensar e sentir diferente, como também um modo distinto de perceber
e conhecer." (...) "A relação do homem moderno
médio com a natureza não é a predominante no "ciclo"
pré-moderno, a que, junto a muitas outras, a tradição
hermético- Especificamente em relação à alquimia, Evola declara: "Esta ciência não se adquire com os livros e com raciocínio." (...) "Mas quando se realiza o retorno a uma sensação amimada e "simbólica" daquilo que para os homens modernos se petrificou em termos de natureza morta e de conceitos abstractos por cima dela, dessa mesma realização deriva, ao mesmo tempo, o primeiro princípio do ensino hermético." (...) "Não se trata, portanto, neste caso, de uma teoria filosófica (hipótese da redutibilidade de todas as coisas a um princípio único), mas sim de um estado concreto, devido a uma certa supressão da lei de dualidade entre o Eu e o não-Eu e entre "dentro" e "fora", que salvo raros instantes domina a comum e mais recente percepção da realidade. Este estado é o segredo que nos textos recebe o nome de "Matéria da Obra", ou "Matéria prima dos Sábios", já que só partindo deste estado é possível "extrair" e "formar" "segundo o rito" e "a arte" tudo quanto, quer em termos espirituais, quer em termos de aplicação operativa ("em termos mágicos"), a tradição promete." Esta distinção fundamental existente entre o homem antigo e o moderno se estende às Formas artísticas. Desde a Renascença – sobretudo a partir de meados do século XIX, ao passo que o artista se tornava socialmente independente – a arte esvaziou-se paulatinamente de sentido. Não é à toa que um artista tão admirável quanto Marcel Duchamp tenha denunciado fervorosamente o "retinianismo" em que ela caiu desde o movimento Impressionista. Duchamp é tão pouco compreendido quanto o foram, por exemplo, em suas respectivas épocas, Jan Vermeer e Leonardo da Vinci. Em relação a ele, parece que, tanto para a crítica quanto para a grande maioria dos artistas, as uvas estavam verdes. Hoje, alguns chegam ao ponto de "denunciá-lo" como o causador da grande confusão em que se encontra o mundo da arte contemporânea. "Essa confusão vem desde 1916, quando o francês Marcel Duchamp (1887-1968) pegou uma roda de bicicleta e a fixou em uma banqueta", comenta o enviado especial – cujo nome não é revelado – da Folha de São Paulo à Documenta de Kassel. Diga-se de passagem o ready-made "Roda de Bicicleta" data de 1913, e, em 1916, crítica e público ainda não davam a mínima atenção a esta vertente da obra de Duchamp. Assim agoniza a arte contemporânea, em mostras internacionais que chegam ao nível do "entretenimento, esporte e lazer", divulgadas e comentadas por uma "crítica" anônima que não consegue acertar sequer as datas. Não foi diferente com a alquimia, confundida pelo público e pela História com "tentativa de fabrico artificial do ouro". A propósito, transcrevemos alguns trechos do admirável tratado (acima citado) de Fulcanelli: "De todas as ciências cultivadas na Idade Média, nenhuma, com toda a certeza, esteve mais em voga e foi tida em maior apreço do que a ciência alquímica. Era esse o nome sob o qual se dissimulava, entre os árabes, a Arte Sagrada ou Sacerdotal, que eles tinham herdado dos Egípcios e que o Ocidente medieval devia, em seguida, acolher com tanto entusiasmo." (...) "Nascida no Oriente, pátria do mistério e do maravilhoso, a ciência alquímica alastrou no Ocidente por três grandes vias de penetração: bizantina, mediterrânea, hispânica. Foi sobretudo o resultado das conquistas árabes. Esse povo curioso, estudioso, ávido de filosofia e de cultura, povo civilizador por excelência, forma o traço de união, a cadeia que liga a Antiguidade oriental à Idade Média ocidental." (...) "De começo tímida, hesitante, a alquimia toma pouco a pouco consciência de si mesma e pouco tarda em firmar-se. Tende a impor-se, e essa planta exótica, transplantada para o nosso solo, aclimata-se nele à maravilha, nele se desenvolve com tanto vigor que bem cedo a vemos desabrochar numa exuberante floração. A sua expansão, os seus progressos, têm algo de prodígio. Escassamente cultivada – e apenas na sombra das celas monásticas – no século XII, no século XIV propaga-se por toda a parte, irradiando em todas as classes sociais, onde brilha com o maior fulgor. Cada país proporciona à misteriosa ciência um viveiro de fervorosos discípulos, e cada condição social empenha--se em sacrificar-lhe. A nobreza e a alta burguesia praticam-na com ardor. Sábios, monges, príncipes, prelados, professam-na; até a gente dos ofícios e os pequenos artífices, ourives, gentis-homens vidreiros, esmaltadores, boticários, são tomados pelo desejo irresistível de manejar a retorta. Se não se trabalha às claras – a autoridade real acossa os assopradores (falsos ou pretensos alquimistas***), e os papas cominam--nos com excomunhão –, não se deixa de estudar à socapa. Procura-se avidamente o convívio dos filósofos, pretensos ou verdadeiros. Estes empreendem longas viagens, no intento de aumentar a sua bagagem de conhecimentos, ou correspondem--se, recorrendo à cifra, de país para país, de reino para reino. Disputam-se os manuscritos dos grandes adeptos, os do panapolitano Zózimo, de Ostanes, de Synesius; as cópias de Geber, de Thazes, de Arthephius. Os livros de Morieno, de Maria a Profetisa, os fragmentos de Hermes negociam-se a peso de ouro. A febre apodera-se dos intelectuais e, com as fraternidades, as lojas maçónicas, os centros iniciáticos, os assopradores crescem e multiplicam-se. Poucas famílias escapam ao pernicioso atractivo da quimera dourada; bem raras são aquelas que não contam entre os seus um alquimista praticante, algum caçador de impossível. A imaginação campeia à larga. A auri sacra famis arruína o nobre, desespera o plebeu, esfaima seja quem for que nela cai e só aproveita ao charlatão. "Abades, bispos, médicos, eremitas – escreve Lenglet-Dufresnoy**** –, todos se ocupam de alquimia; era a doidice do tempo, e sabe-se que cada século tem uma que lhe é peculiar; mas infelizmente esta reinou mais tempo do que as outras, e nem sequer passou de todo"." Fulcanelli continua: "O século XV marca o período glorioso da ciência e excede ainda os precedentes, tanto pelo valor quanto pelo número dos mestres que o ilustraram. A partir desse momento, o hermetismo cai no descrédito. Mesmo os seus partidários, exasperados com o insucesso, voltam-se contra ele. Atacado por todos os lados, o seu prestígio some-se; decresce o entusiasmo, a opinião modifica-se. Operações práticas, coligidas, reunidas, e depois reveladas e ensinadas, permitem aos dissidentes sustentar a tese do nada alquímico, arruinar a filosofia lançando as bases da nossa química actual. Séthon, Venceslau Lavínio de Morávia, Zacário, Paracelso, são, no século XVI, os únicos herdeiros conhecidos do esoterismo egípcio, que a Renascença renegou depois de o ter corrompido. Rendamos, neste passo, uma suprema homenagem ao ardente defensor das verdades antigas que foi Paracelso; o grande tribuno merece da nossa parte um eterno reconhecimento, pela sua última e corajosa intervenção. Embora vã, ela não deixa de constituir por isso um dos seus mais belos títulos de glória." No parágrafo seguinte, ele diz: "A arte hermética prolonga a sua agonia até ao século XVII, e extingue-se por fim, não sem ter dado ao mundo ocidental três rebentos de grande envergadura: Lascaris, o Presidente d’Espagnet e o misterioso Eireneu Filaleuto, vivo enigma de que jamais foi possível descobrir a verdadeira personalidade." Em seguida, conclui: "Com o seu cortejo de mistério e de desconhecido, sob o seu véu de iluminismo e de maravilhoso, a alquimia evoca todo um passado de histórias remotas, de narrativas miríficas, de testemunhos surpreendentes. As suas teorias singulares, as suas receitas estranhas, a fama secular dos seus grandes mestres, as controvérsias apaixonadas que suscitou, o favor que desfrutou na Idade Média, a sua literatura obscura, enigmática, paradoxal, parecem hoje exalar um cheiro a bafio, de ar rarefeito, que adquiriram, com o longo contacto dos anos, os sepulcros vazios, as flores mortas, as casas abandonadas, os pergaminhos amarelecidos." Perguntamo-nos: o que está acontecendo com a arte? Não é assustadoramente similar o que nos conta Fulcanelli e o que se passa com a arte contemporânea – que, no entanto, a massa crédula ainda se alegra em celebrar? Mas façamos um esclarecimento: há uma grande diferença – infelizmente percebida por poucos – entre arte (essa força intemporal contida nas obras dos artistas verdadeiros) e mundo da arte (essa indústria de entretenimento que agora agoniza e derrete). É verdade que a maioria ansiosa dos "artistas", em busca de reconhecimento por parte de seus contemporâneos, prefere se calar, pois esse tipo de discussão "não se usa". Mas, felizmente, nem todos são assim. Se a arte se esvaziou de sentido a partir do Impressionismo, nos últimos trinta anos chegou a não mais poder. Como condenar aqueles que não têm a mínima paciência para visitar mostras e Salões? O século XX é o século da ruptura e da transgressão, idéias que, no mais das vezes, se fundamentam na simples e constante obsessão pelo "novo" – que agora se transformou em nada mais do que a enjoativa repetição de um hábito. As mercadorias ("obras de arte", como declaram seus orgulhosos autores) que em geral se vê nas exposições, bienais, e na famosa Documenta, entediam tão facilmente que logo precisam ser substituídas, sejam de cera, de renda ou "naturais". E, para se defender da eternidade, os próprios artistas completam o serviço, "questionando a durabilidade da matéria". Que espaço terá a arte do século XX na futura História da Arte – se é que o futuro terá alguma arte e a arte alguma História? Reflete com sabedoria Octávio Paz****: "Hoje assistimos ao crepúsculo da estética da mudança. A arte e a literatura deste fim de século perderam paulatinamente seus poderes de negação; há muito tempo suas negações são repetições rituais, fórmulas suas rebeldias, cerimônias suas transgressões. Não é o fim da arte, é o fim da idéia da arte moderna. Ou seja: o fim da estética fundada no culto à mudança e à ruptura." Esperemos que sim.
Belo Horizonte, agosto de 1997.
*Fulcanelli, AS MANSÕES FILOSOFAIS, Lisboa, Edições 70, 1965. Título original: LES DEMEURES PHILOSOPHALES, copyright 1965 Jean-Jacques Pauvert, éditeur. Primeira edição: 1929. **Julius Evola, A Tradição Hermética, Lisboa, Edições 70, 1971. ***N. do A. ****Lenglet-Dufresnoy, Histoire de la Philosophie hermetique, Paris, Costelier, 1742. *****Octávio Paz, A Outra Voz, São Paulo, Livraria Siciliano, 1990.
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